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Biografia de Marina Colasanti
A Paixão da Sua Vida
Amava a morte. Mas não era correspondido.
Tomou veneno. Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o
rejeitava, recusando-lhe o abraço.
Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estorou-lhe o coração.
A Quem Interessar Possa
Abriu a janela no exato momento em que a garrafa com a mensagem
passava, levada pelo vento. Pegou-a pelo gargalo e, sem tirar a rolha,
examinou-a
cuidadosamente. Não tinha endereço, não tinha remetente.
Certamente, pensou, não era para ele. Então, com toda delicadeza, devolveu-a ao vento.
E A Brisa Sopra
Ao amanhecer, quando vindo do mar começava a soprar leve o vento,
subia o rapaz no alto daquele prédio, e empinava a pipa amarela. Batendo o
tênue corpo de papel contra as varetas, serpenteando a cauda, lá ficava ela
no azul até que o final da tarde engolia a brisa, habilitando
então o a terra
sobre o mar, e descendo o rapaz para a noite.
Assim, repetia-se o fato todos os dias. Menos naquele em que, por doença ou
sono, o rapaz não apareceu no alto do terraço. E a brisa da manhã
começou a soprar. Mas não estando a âncora amarela presa ao céu, o edifício
lentamente estremeceu, ondulou, aos poucos abandonando seus alicerces para
deixar-se levar pelo vento.
Amor de Longo Alcance
Durante sete anos , separados pelo destino, amaram-se a distância. Sem
que um soubesse o paradeiro do outro, procuravam-se através dos
continentes, cruzavam pontes e oceanos, vasculhavam vielas, indagavam. Bússola de
longa busca, levavam a lembrança de um rosto sempre mutante, em que o desejo, incessantemente,
redesenhava os traços apagados pelo tempo.
Já quase nada havia em comum entre aqueles rostos e a realidade, quando enfim, num praça se encontraram. Juntos, podiam agora viver a vida com
que sempre haviam sonhado.
Porém cedo descobriram que a força do seu passado amor era
insuperável.
Depois de tantos anos de afastamento, não podiam viver senão separados,
apaixonadamente desejando-se. E, entre risos e lágrimas, despediram-se,
indo morar em cidades distantes.
Um Tigre de Papel
Sabendo que a ele caberia determinar seus movimentos e controlar sua fome, o escritor começou lentamente a materializar o tigre. Não se preocupou
com descrições de pêlo ou patas. Preferiu introduzir a fera pelo cheiro. E
o texto impregnou-se do bafo carnívoro, que parecia exalar por entre as
linhas.
Depois, com cuidado, foi aumentando a estranheza da presença do tigre na sala rococó em que havia
decidido localizá-lo. De uma palavra a outro, o felino movia-se irresistível,
farejando o dourado de uma poltrona, roçando o dorso rajado contra a perna de uma
papeleira.
Em vez de escrever um salto, o escritor transmitiu a sensação de
movimento com uma frase curta. Em vez de imitar o terrível miado, fez tilintar os
cristais acompanhando suas passadas. Assim, escolhendo o autor as
palavras com o mesmo sedoso cuidado com que sua personagem pisava nos tapetes
persas,
criava-se a realidade antes inexistente.
O quarto parágrafo pareceu ao escritor momento ideal para ordenar ao tigre que subisse com as quatro patas sobre o tamborete de "petit-point". E
já a fera aparentemente domesticada tencionava os músculos para obedecer
quando, numa rápida torção do corpo, lançou-se em direção oposta. Antes que
chegasse a vírgula, havia estraçalhado o sofá, derrubado a mesa com a estatueta
de Sévres, feito em tiras o tapete. Rosnados escapavam por entre letras e
volutas. O tigre apossava-se da sua natureza. Já não havia controle
possível. O autor só podia acompanhar-lhe a fúria, destruindo a golpes
de palavras a bela decoração rococó que havia tão prazerosamente
construído, enquanto sua criatura crescia, dominando o texto.
Impotente, via aos poucos espalharem-se no papel cacos de móveis e porcelanas, estilhaçar-se o grande espelho, cair
por terra a moldura entalhada. Não havia mais ali um animal exótico na sala de um palácio,
mas um animal feroz em seu campo de batalha.
O escritor esperava tenso que o cansaço dominasse a fera, para que ele pudesse retomar o domínio da narrativa, quando o viu virar-se na sua
direção, baixar a cabeça em que os olhos amarelos o encaravam, e
lentamente avançar.
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, a enorme pata do tigre
abatendo-se sobre ele obrigou o texto ao ponto final.
Como Uma Rainha de Micenas
Tendo falecido esposa muito amada, desejou que partisse para a última
viagem com o fausto de uma rainha. Rodeou-lhe o pescoço de gargantilhas
e colares que desciam sobre o peito ocultando as vestes. Encheu-lhe de anéis os dedos que n"ao mais dobrariam falanges. E brincos, pulseiras, enfeites cobriam aquele corpo agora mais resplandecente do que em vida. Depois, para que nada lhe faltasse na longa travessia, depositou ao seu redor jarros, pratos, taças, talheres do mais puro ouro, sem esquecer pentes e um espelho para sua vaidade.
A idéia de apartar-se da esposa para sempre era-lhe, porém,
insuportável.
Querendo-a pelo menos ao alcance da sua saudade, mandou construir no canto mais frondoso do jardim uma capela, em cuja cripota de pórfiro abrigou o esquife, separado dele apenas por um portãozinho de ferro batido.
E disposto a enfrentar o luto interminável, começou o aprendizado de uma nova vida em que a voz amada não ecoaria.
Talvez justamente devido a esse silêncio, cedo surpreendeu-se com a rapidez com que aprendia. A vida parecia-lhe de fato mais nova a cada dia. Nem bem um ano tinha-se esgotado, quando lhe ocorreu que, como ele tanto havia avançado, também a esposa teria a essa altura cumprido parte de sua viagem.
Pelo que já lhe não seria necessárias algumas das coisas que consigo levara para uso simbólico. Em ranger de ferros, entrou na cripta e selecionou uns poucos pratos, um frasco, sem dúvida devidamente usados no além.
Desse modo, foi sucessivamente recolhendo os objetos de outro que, gastos pela defunta e já sem
serventia para ela, afiguravam-se como muito proveitosos para si. Um garfo hoje, uma taça amanhã, um pente agora, um jarro depois, acabou enfim chegando às jóias pessoais.
Na semi-escuridão da cripta, pulseiras e adereços brilhavam
frouxamente, folgados os anéis nos dedos descarnados, pousada ainda a tiara sobre a fronte. Jóias demais, pensou ele contrito. Sem dúvida, nada condizentes com uma mulher que,
onde quer que se encontrasse, estaria entrando na velhice.
Assim pensando, retirou as mais pesadas. Voltando tempos depois para buscar as menos comprometedoras. E por último as insignificantes. Até chegar ao despojamento total.
No esquife, agora, restava apenas o espelho de outro. Mas de que serve um espelho para uma mulher simples e velha, já despida de vaidades? perguntou-se.
Tento pronta a resposta, pegou o espelho pelo cabo, e saiu sem fechar o portão atrás de si.
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