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Desde a antiguidade greco-romana,o conceito de Literatura vem interessando a críticos e teóricos,visto que é respaldado por
disciplinas, tais como Filosofia, Sociologia, Psicologia,
Antropologia ... Terry Eagleton, em seu livro traz a "trajetória" do conceito dado à Literatura. Comecemos por Aristóteles...
Aristóteles (384 a. C), inaugurou uma série de estudos com sua hipótese de
Mímese, ou seja, a Literatura é vista como a imitação, aliás, capacidade de reproduzir os mecanismos utilizados na criação da realidade. Tal conceito enfatizava o aspecto original da arte literária, e este atravessou a barreira dos séculos, tanto que somente no séc. XIII São Tomas de Aquino, desenvolveu um outro conceito, que soa como complementação do anterior : a Literatura passa a ser vista não como uma reprodução da realidade, mas sim como uma forma de conhecimento desta.
É obvio dizer que os conceitos antigos diferem dos contemporâneos.Apesar do "pequeno" salto no tempo, a diferença não é tão berrante.No séc. XX, o conceito passa de imitação da realidade à expressão mais completa do ser humano.Tal concepção é fruto de uma atividade de interação entre o homem e o ambiente no qual ele está inserido.
Os conceitos antigos mereceram comentários e explicações vários.Foram combatidos, rejeitados e por fim, contrabalançados com a idéia, segundo a qual, os textos literários guardam intentos lúdicos, além de que visam entreter o leitor, tendo por intento mor a evasão do cotidiano amargo e feroz.
"O único meio de suportar a existência, é afogar-se na Literatura como numa orgia perpétua. O vinho da arte causa uma profunda embriaguez e esta é, inesgotável".
G.Flaubert
A miríade de interpretações que a questão literária oferece, vaga pelos extremos. Alguns a encaram como "a manifestação mais sublime do homem", enquanto outros a encaram de uma maneira totalmente contrária, denotando indiferença e irrelevância. As figuras de estudiosos contemporâneos, como Charles du Bos e Raul Castagnino podem ilustrar tal fato. Du Bos encara a Literatura através de um prisma espiritualista, classificando-a como intermediadora da conexão Alma-Luz. Em contrapartida, Castagnino padece de um ceticismo que poderia ser classificado como selvagem, o que permite considerar o debate em torno da questão literária, estéril, e por assim dizer, inútil. Ambos não demonstram precisão em seus conceitos, visto que o primeiro, devido a sua tendência religiosa, deixa o problema em aberto e parcialmente intocado, o segundo encara tal questão a partir de uma ótica cética, deixando a questão em aberto, pois a põe em segundo plano, e conseqüentemente, não cria uma postura cientifica na qual esta deveria se apoiar. O conceito proposto por Thomas C. Pollock se relaciona com a estética simbólica, pois enfatiza o aspecto semântico, ou seja, uma série de signos (verbais ou não-verbais) é capaz de evocar na mente do leitor uma experiência análoga, mas não idêntica a do escritor.
A questão literária preocupa principalmente a estética simbólica, para a qual a Literatura tem por função, a revelação das almas através das formas simbólicas da Linguagem. Susane Langer considera a Literatura como a revelação do caráter subjetivo, da nossa vida pessoal, a Literatura afirma-se como meio privilegiado de exploração e conhecimento da realidade interior, do eu interior, do eu profundo que as convenções, hábitos e exigências sociais mascaram continuamente. Através dos tempos, a Literatura tem sido o mais fecundo instrumento de análise e de compreensão do homem e das suas relações com o mundo. Sófocles, Shakespeare, Cervantes, Rousseau, Dostoievski, Kafka... representam novos modos de compreender o homem e a vida e revelam verdades humanas. Antes de Kafka ou Rousseau, ninguém se atreveu a analisar com tamanho despudor a mente humana.
Data de Aristóteles, a temática da catarse como finalidade da Literatura. Aristóteles tomou o vocábulo da Linguagem médica, onde designava um processo purificador, que limpa o corpo de elementos nocivos.
"Assistir a uma dor fictícia de outrem leva a um desafogo inócuo de paixões, como o temor e a piedade".
Aristóteles
Na Poética, o autor afirma clara e explicitamente que a função própria da Literatura é proporcionar prazer, não um prazer grosseiro e corruptor, mas puro e elevado.
Retomando, o conceito dado pela estética simbólica implica na idéia de conhecimento, ou seja, a de que a arte literária constitui um tipo de conhecimento, diferente dos demais, estabelecido pelo signo empregado, de acordo com sua natureza e valência, ou seja, a
Literatura é um tipo de conhecimento expresso por palavras polivalentes.
Dado ser impossível captar a realidade por via direta, só resta conhecê-la por meio de um sinal que a represente. Mas fazê-lo implica em "mentir", "fingir" a realidade que se mostra, de modo que a realidade espelhada na representação não é a que se deseja conhecer, mas como aparece na mente do artista.E neste tópico que o conceito contemporâneo refuta o conceito medieval. Agora passa a ser levada em conta a concepção individual do artista acerca da realidade.
Outro vértice que a primitiva pergunta cria, implica na classificação da Literatura; o que pode e o que não pode ser classificado como Literatura, mostrando que nem tudo o que é escrito, é Literatura. Shakespeare é classificado como literato, mas tal classificação não se aplica a Marx. Apesar dos pesares, Shakespeare é posto ao lado de Descartes.Por quê?
Levando-se em conta a temática dos escritores, há uma sensível disparidade. A "definição" de Literatura, como escrita imaginativa, não
procede.- Shakespeare é romancista, Descartes, filósofo, o primeiro trabalha a ficção, enquanto o segundo opera questões mais objetivas.- As histórias em quadrinho do Homem-Aranha são obras de ficção, mas nem por isso são classificadas no módulo literário. Talvez, a definição se dê não pelo fato de ser uma escrita imaginativa, mas sim pelo fato de que a Linguagem é empregada de um modo peculiar, dando assim, margem para ínfimas interpretações.
Porquê Shakespeare é posto ao lado de Descartes, Bacon, sendo estes filósofos e aquele romancista? Seria porque as escrituras de Shakespeare,do modo como são escritas,dão margem a interpretações várias,enquanto Marx,não . Com o tempo, pode variar o conceito do público sobre o tipo de escrita considerado digno de levar tal nome. Uma obra pode ser considerada como filosofia num século, noutro literatura. Até as razões que determinam a formação do critério de valioso podem se modificar. O nosso Homero não é igual ao Homero da Antiguidade, nem nosso Shakespeare é igual ao medieval.
A "questão" da classificação surgiu a partir do momento em que Literatura foi confundida com Bibliografia, e tal confusão passou a ser utilizada correntemente : Literatura Medica, Eclesiástica, Farmacêutica... Tal fato indica o uso abusivo e errôneo do vocábulo, o que resulta na idéia pejorativa com que se recebe o vocábulo. Na verdade bastaria substituir "Literatura" por "Bibliografia", para que o problema se resolvesse de vez.
Portanto, a Literatura não existe como os animais, já que os juízos de valor que ela tem, são variáveis. Tais juízos não se referem apenas ao gosto particular, mas principalmente a ideologias e de forma mais geral, a crenças e preconceitos.
"A Literatura é a mais importante manifestação da vida social, pois ela marca e expressa a cultura de um povo nos mais diferentes momentos de sua historia".
A.Tersariol
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