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Abertura
Uma garrafa de purgante a todos os corpos portadores de tédio, marasmo, tapa-olho-orelha, desprovidos de iniciativas, amor-próprio, senso de humor, esperanças, sonhos, já velhos, carcomidos, sem entranhas, sem coração, sem alma, sem vida.
Capítulo um
De Palavras e de Sombras
Cada palavra tem a sua sombra.
As palavras mais geniais, mais sábias, mais bem elaboradas ficam escondidas. São arredias, esquivas e sentimentais demais. Elas sabem dos destinos humanos. Têm informações claras e precisas a respeito dos castigos. O preço é alto demais para aceitar o risco. A sinceridade, a humildade, a sabedoria e a dignidade perderam-se por picadas e caminhos desertos, pouco freqüentados pelos humanos, esses que têm as rédeas da diligência nas mãos.
Eu sei do que estou falando. Tenho muito claro como as coisas vão se passar. Prevejo o tipo de homem que comandará os destinos e os caminhos. Há algo de muito trágico rondando nossos quintais. Muitos vão gargalhar. As sombras das palavras pagarão a conta:
- Por que não denunciaram? Por que calaram? Vocês estavam do mesmo lado, compactuaram!
Os que bebiam acima dos cordeiros manterão a ordem:
- Não sujem a nossa água!
A diligência seguirá por caminhos demarcados, mais seguros. Os desvios ficarão para as sombras que já desistiram do grande sonho. As palavras e os exemplos desses românticos ficarão perdidos nas sombras, onde serão pisoteados e amordaçados por aqueles que ali descansarem da grande jornada que terá prosseguimento amanhã.
Capítulo dois
Cogumelos de Capetas
Progressivamente, num tempo muito curto, teremos um planeta infestado de cogumelos de capetas. Os caminhos serão os caminhos de um grande rio, profundo, silencioso, de águas turvas, de galhos secos, de espumas verdes e incolores nos redemoinhos.
Cogumelos de capetas tomarão de assalto nossos sonhos e nossas ansiedades. Quando os vigias do templo acordarem do grande e pesado sono, já será tarde demais. Os cogumelos de capetas estarão nas ruas, nas igrejas, nas escolas, nos estádios, nos parques, nos pesadelos humanos. A escola não precisará mais boletins.
Os cogumelos de capetas invadirão nossos quintais, riscarão nossos carros, matarão nossos peixes, queimarão as matas, encherão nossos parques de ratos, incendiarão nossos museus, limparão nossos cérebros. Não haverá mais janeiro, nem aniversários, nem férias, nem telefonemas amorosos, nem lojas de perfumes. Estáticos permaneceremos, enquanto eles roerem nossas entranhas. Tudo virá no seu tempo, em silêncio.
Capítulo três
Os Justos, coitados! e a Burocracia
Assim meio atrapalhado, eu fico pensando no tempo que o ser humano perdeu em reuniões, projetando e gerando formulários. Minha euforia descamba diante de tantos questionários, cabeçalhos, fichas de avaliação, resoluções, planos estratégicos, vários autores emissores de um mesmo ofício. E eu fico pensando nos alunos que tanto anseiam por novidades e motivações.
Não consigo entender como o homem conseguiu seguir adiante, debruçado na burocracia. Os exemplares estão em todas as eras, em todas as repartições.
Há pessoas que vivem nas suas salas matutando obrigações, elaborando documentações, reinventando fichas, formulários, atas...
Na história da humanidade, sempre houve um que viveu para atrapalhar a vida dos outros. A mediocridade, a inutilidade, a incapacidade, a ausência de criatividade, de ludicidade, de sensibilidade transformaram essas pessoas em fichários, em quadros demonstrativos, em cabeçalhos, em formulários, em horários.
Talvez seja por isso mesmo que certas gavetas ficaram tão grandes. É, as gavetas e os armários vão aumentando assustadoramente de tamanho. E eu fico pensando nas reuniões e no tempo gasto para desenhar as novas gavetas, os novos armários, os novos fichários...
Eu fico aqui nesse fundo de sala pensando na vida, no final de semana, nos pássaros do lugarzinho onde nasci, que nem sabem que eu passo por lá de vez em quando...
Capítulo quatro
Uma tal de Pacientolina
Ouvindo sábias palavras de um nobre colega (AHG Cunha), tomei a firme e irreversível decisão. Fui à farmácia.
- Alguém já esteve aqui, hoje!, ponderou a balconista.
- Psiu! Ninguém pode saber.
- Ah, que história é essa? Eu, hein!
O estresse, a síndrome do pânico, a doença do século XXI. Preparai-nos, médicos e enfermeiras! Bons remédios, cura imediata, autodefesa sempre alerta!
Mas esse nobre colega de rara linhagem (aguardai-o!) falou-me da nova descoberta.
Era uma vez um senhor bem velho que caminhava pela sala de jantar e, TÓIM, o milagre. A Pacientolina!
Do "Manifesto Pacientolina" daquele bom velhinho pudemos traduzir apenas alguns fragmentos. Os dicionários nos ajudaram bastante. Alguns fragmentos traduziram-se por pura intuição. Siga as instruções.
* contra os terrores burocráticos;
* quando você for a uma repartição pública e ouvir as "sagradas e consoladoras palavras" - volte daqui a 90 dias;
* Pacientolina é remédio definitivo contra "vamos marcar outra reunião", "cadê o projeto?", "quem vai redigir a ata?";
* tome Pacientolina sempre que lembrar de que entre você e o Governador, que é seu patrão, há 37 instâncias;
* tome Pacientolina para jamais pegar o "bonde da história";
* quando estiveres no pequeno universo onde FORES REI ou RAINHA e rirem de ti, desrespeitando-te, dizendo palavrões, dando a mínima para os livros que indicares, para o valor que destinas à cultura, ao respeito, ao conhecimento... e os pais vierem e ameaçarem - largue tudo, com Pacientolina;
* Pacientolina é ótimo para outros momentos de decepção e agonia, principalmente quando ouvires de uma autoridade, de quem manda mesmo, que a questão não foi resolvida, o seu projeto não foi estudado nem aceito porque "não chegou nada às minhas mãos, não sei de nada não".
Longa vida à Pacientolina!
Ildo Carbonera, 1996.
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