AMBIGÜIDADES, SIMBOLISMOS, METÁFORAS, OBSCURIDADES, ENIGMAS, ALEGORIAS 

Rubem Fonseca

A pessoa quando lê um livro pode ter várias reações. Pode cochilar (há quem leia apenas na cama, duas ou três páginas, para ter sono e dormir), pode se divertir, aprender, criar, sonhar. Mas pode também ter reações como se emocionar sem saber bem por quê; ou ficar perplexa, na dúvida se é cinza ou é preto; ou não entender, mas sentir, com admiração, que há algo sendo dito. Ou coçar a cabeça e perguntar-se espantada, "que diabo é isto?". 

Toda literatura tem sua dosagem de ambigüidades, enigmas, simbolismos, metáforas, obscuridades, alegorias, mas é rara a peça literária em que todos esses elementos se apresentam simultaneamente. Talvez o Finnegans Wake, do James Joyce, seja o único caso em que ocorra esse tautocronismo. Entre os exegetas não há acordo sobre a) o que é o Finnegans Wake; b) se ele é "sobre alguma coisa", c) se o seu texto é, no sentido ordinário, legível. As poucas pessoas que conheço e que tentaram ler o livro coçaram a cabeça e se perguntaram: "que diabo é isto?". Perderam um enigma instigante.

Então o texto literário pode ser enigmático? Pode, desde que não seja um criptograma maçante. A poesia pode ter uma imponderabilidade desconcertante, mas ao mesmo tempo atraente. O poeta Wallace Stevens, ao examinar os principais critérios referente à criação poética, disse que ela deve ser abstrata, além, é claro, de dar prazer.

Os jornais publicaram recentemente que o professor Philips Edwards finalmente decifrara um poema de T.S.Eliot, que há 70 anos era incompreensível para eruditos e amantes da literatura. O breve poema Usk era considerado um dos mais "difíceis" do escritor, ganhador do Prêmio Nobel. Vejamos o poema, cujo conteúdo vinha sendo debatido há décadas pelos "estudiosos":

Sem alarde quebre-se o ramo,/Ou a esperança de encontrar/ O cervo branco atrás da límpida nascente./ Relanceia o olhar, mas não lanceia, não soletra/ Antigos sortilégios. Deixa-os dormir./ "Docemente imersos, mas não tanto submersos."/ Ergue teus olhos/ Até onde mergulha e emerge a estrada/ Busca apenas onde/ A luz cinzenta o verde espaço tangencia/ A capela do eremita, a prece do peregrino.
(Tradução do consagrado poeta e tradutor Ivan Junqueira. Vale a pena reler.)

O chato professor Edwards, depois de minuciosas e fúteis pesquisas, chegou à conclusão de que Eliot não fala de nenhum animal, mas da taverna "O Cervo Branco", de uma pequena aldeia britânica chamada Usk. Ou seja, deixou de haver espaço para as interpretações que se faziam do poema. O cervo branco não simboliza mais, como sugeriram os críticos, a "busca da ascese", "a redenção" etc. 

Adiantou alguma coisa desvendar o mistério? Claro que não, apenas permite que se estabeleçam diálogos deste tipo: - "O Usk é sobre o quê?" - "É sobre um boteco onde o Eliot enchia a cara". Poesia não precisa ser entendida ("no meio do caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meio do caminho"), basta deixar o leitor perturbado e/ou emocionado. Ela não é bula de remédio ou vade-mécum.

Literatura de ficção pode e deve ter suas ambigüidades, possuir vários significados, ser analisada de várias maneiras. Exemplo de ambigüidade: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Até hoje os estudiosos discutem, exaustivamente: a) se a esposa de Bentinho, Capitu, era amante de Escobar; b) se Bentinho era homossexual e estaria apaixonado por Escobar desde o tempo em que estudaram juntos no seminário; c) se Ezequiel, o filho de Bentinho com Capitu, era, na verdade, filho de Escobar. Essa ambigüidade nunca fez mal ao livro, ao contrário.

Mas a ambigüidade dos ficcionistas nada tem a ver com aquela dos chamados "profetas". Estes sabem que têm que ser ambíguos e obscuros para poder acertar sempre. Nostradamus, um dos mais renomados profetas da História, é reverenciado até hoje pelos ingênuos (nasce um otário a cada minuto, como disse o empresário circense Barnum), exatamente porque suas previsões sobre a morte de papas, catástrofes naturais etc., escritas em estrofes de quatro versos, podiam ser interpretadas de inúmeras maneiras. Sua astuta obscuridade facilitava sua adaptabilidade aos novos fatos. O mesmo vale para o I ching, o Oráculo da Mudança, que há três mil anos tem dado inspiração, orientação (e conforto, afinal pode ser interpretado à vontade do freguês) a milhões de crédulos. 

Em matéria de polissemia textual nenhum livro ganha de Ensaios sobre o silêncio, de Elbert Hubbard, talvez o primeiro a publicar um livro apenas de páginas em branco, sendo fiel a um dos seus inúmeros ditados: "Para evitar a crítica, não faça nada, não diga nada, não seja nada". (Hubbard escreveu e publicou muitos livros, o mais conhecido é Mensagem a Garcia, que teve duas versões cinematográficas, a primeira ainda muda, em 1916, no auge da popularidade do livro, e a outra em 1936, com artistas famosos, como Wallace Beery e Bárbara Stanwyck).

Existem muitos outros livros de páginas em branco, os mais conhecidos são Memórias de um amnésico e O livro do nada - não confundir com The Book of Nothing: A Natural History of Zero, do matemático John D. Barrow, definido por um crítico como "um livro essencial que mostra como nada pode ser alguma coisa, ao contrário da terrível idéia de que nada pode ser qualquer coisa". 

Não faltam ambigüidades e enigmas, na ficção e na poesia. Aliás, todo texto literário (mesmo o de caráter religioso, como a Bíblia) é, de certa maneira, uma charada a ser resolvida. 

Dê uma olhada mais atenta no romance, no conto ou no poema que está lendo. 

Rubem Fonseca

Retirado do Site http://portalliteral.terra.com.br/


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