Crônica 

O Conto-do-Vigário
Machado de Assis

De quando em quando aparece-nos o conto-do-vigário. Tivemo-lo esta semana, bem contado, bem ouvido, bem vendido, porque os autores da composição puderam receber integralmente os lucros do editor.

O conto-do-vigário é o mais antigo do gênero de ficção que se conhece. A rigor pode crer-se que o discurso da serpente, induzindo Eva a comer do fruto proibido, foi o texto primitivo do conto. Mas se há dúvida sobre isso, não a pode haver quanto ao caso de Jacó e seu sogro. Sabe-se que Jacó propôs a Labão que lhe desses todos os filhos de cabras que nascessem malhados. Labão concordou certo de que muitos trariam uma só cor; mas Jacó, que tinha plano feito, pegou de umas varas de plátano, raspou-as em parte, deixando-as assim brancas e verdes a um tempo, e, havendo as posto nos tanques as cabras a concebiam com os olhos nas varas. E os filhos saíam malhados. A boa fé de Labão foi assim embaçada pela finura do genro; mas não sei que há na alma humana que é Labão que faz sorrir, ao passo que Jacó passa por um varão arguto e hábil. 

O nosso Labão desta semana foi um honesto fazendeiro do Chiador, que, estando em uma rua desta cidade, viu aparecer um homem, que lhe perguntou por outra rua. Nem o fazendeiro, nem o outro desconhecido que ali apareceu também, tinha notícia da rua indicada. Grande aflição do primeiro homem recentemente chegado da Bahia, com vinte contos de réis de um tio dele, já falecido, que deixara dezesseis para os náufragos da terceira e quatro para a pessoa que se encarrega-se da entrega.

Quem é que, nestes ou em quaisquer tempos, perderia tão boa ocasião de ganhar depressa e sem cansaço quatro contos de réis, eu não, nem o leitor, nem o fazendeiro do Chiador, que se ofereceu ao desconhecido para ir com ele depositar na casa Leitão, Largo de Santa Rita, os dezesseis contos, ficando-lhes os quatro de remuneração.

- Não é preciso que o acompanhe, respondeu o desconhecido; basta que o Senhor leve o dinheiro, mas primeiro é melhor juntar a este o que traz aí consigo.

- Sim, Senhor, anuiu o fazendeiro. Sacou do bolso o dinheiro que tinha (um conto e tanto), entregou ao desconhecido, e viu perfeitamente que este o juntou ao maço dos vinte; ação análoga à das varas de Jacó. O fazendeiro pegou do maço todo, despediu-se e guiou para o lago de Santa Rita. Um homem de má fé teria ficado com o dinheiro sem curar dos náufragos da terceira, nem da palavra dada. Em vez disso, que seria mais que deslealdade, o portador chegou à Casa do Leitão e tratou de dar os dezesseis contos, ficando com os quatro de recompensa. Foi então que viu que todas as cabras eram malhadas. O seu próprio dinheiro que era de uma só cor, como as ovelhas de Labão, tinha a pele variegada dos jornais velhos do costume.
A prova de que o primeiro movimento não é bom, é que o fazendeiro do Chiador correu logo à polícia; é o que fazem todos. Mas a polícia; não podendo ir a cata de uma sombra, nem adivinhar a cara e nome de pessoas hábeis em fugir, como os heróis dos melodramas, não fez mais que distribuir o segundo milheiro do conto-do-vigário, mandando notícia aos jornais. Eu, se algum dia os contistas me pegassem, trataria antes de recolher os exemplares da primeira edição.

Aos sapientes e pacientes recomendo bela monografia que podem escrever estudando o conto-do-vigário pelos séculos atrás, as modificações segundo o tempo, a raça e o clima. A obra, para ser completa deve ser imensa. É seguramente maior o números das tragédias, tanta é a gente que se tem estripado, esfaqueado, degolado, queimado, enforcado, debaixo deste belo sol, desde as batalhas Josué até os combates das ruas de Lima, onde as autoridades sanitárias, segundo telegramas de ontem, esforçam-se grandemente por sanear a cidade "empestada pelos cadáveres que ficaram apodrecidos ao ar livre". Lembrai-vos que eram mais de mil, e imaginai que o detestável fedor de gente morta não custa a vitória de um princípio. O conto é menos numeroso, e seguramente, menos sublime; mais ainda assim ocupa lugar eminente nas obras de ficção. Nem é o tamanho que da primazia à obra, é a feitura dela. O conto-do-vigário não é propriamente o de Voltaire, Boccaccio ou Andersen, mas é conto, um conto especial, tão célebre como os outros e mais lucrativo que nenhum.

Pela minha parte não escrevo nada, limito-me a esta breve história da semana, em que tanta vez perco o fio, como agora, sem saber como passo do conto aos bichos. A proposta municipal para transformar o Jardim Jocológico em Jardim Zoológico, apresentada anteontem, até certo ponto ata-me as mãos; aguardo a votação do conselho. Quando muito, visto que a proposta ainda não é lei, e ainda os bichos guardarão dinheiro, podia escrever uma petição em verso. Vi que esta semana a borboleta ganhou um dia. Juro-vos que não sabia da presença dela na coleção dos bichos recreativos, e não descrevo a pena que me ficou porque a língua humana não tem palavras para tais lástimas.

Deus meu! A borboleta na mesma caixa do porco! O lindo inseto tão prezado de todos, e particularmente dos vitoriosos japoneses, agitando as suas asas naquele espaço em que costuma grunhir o animal detestado de Abraão, de Isaac e de Jacó! Onde nos levareis anarquia da ética e da estética! Poetas moços, juntai-vos e componde a melhor das poliantéias, um soneto único mas um soneto legião, em que se peça aos poderes da terra e do céu a exclusão da borboleta de semelhante orgia. Ganho pato, o porco, o peru, o diabo, que é também animal de lucro, mas fica a borboleta entre as flores, suas primas.

(31/03/1895)
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Machado de Assis

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